
Crítica/Filmes: A beleza e o bom estilo do crime - "Public Enemies", 2009.
Assisti Public Enemies com um considerável atraso, isso é fato, mas reconheço que este mérito deve-se aos amigos próximos que apesar de sempre elogiar a performance do senhor Johnny Depp, insistiam em reclamar da longa duração do filme e a sua falta de ação na trama. Desde então nunca me senti tentado a apreciar a obra do diretor Michael Mann, até que em um dia livre me deparei com a disponibilidade do filme e aceitei o desafio de tentar apreciá-lo.
A trama é simples e quase biográfica. Devido aos seus ousados assaltos a banco, durante a depressão econômica norte americana, o herói bandido John Dillinger (em uma interpretação feliz e pouco caricata de Johnny Depp) torna-se o inimigo número um do país. Inicia-se então uma caçada humana liderada pelo oficial Melvin Purvis (em mais uma fria interpretação de Christian Bale), cuja missão torna-se obsessiva devida ao interesse popular e político em relação à captura do maior ladrão de bancos norte americano. Adicione um romance impossível entre John Dillinger e Billie Frechette (em interpretação divina de Marion Cotillard) em cenários pontuados pelo bom uso de luzes temáticas, tiroteios desesperados, figurinos impecáveis e diálogos bem estruturados.
Diferente da impressão inicial erroneamente obtida por conta de opiniões alheias, eu recomendo aos curiosos uma sessão dedicada a Public Enemies. Mesmo que a sua simpatia devota a Johnny Depp, um Robin Hood moderno com um amor impossível, frustre-se a cada novo avanço da perseguição obsessiva coordenada por Christian Bale; não há prazer maior do que admirar Marion Cotillard em um diálogo sincero com Depp, dentro de um restaurante elitista, atraindo a atenção alheia para si por conta de sua beleza e um vestido de três dólares.
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Crítica/Filmes: Onde você esteve desde que escreveu pela última vez?
Fato 1: Eu me prometi escrever todas as impressões sobre todos os filmes que assistir durante este ano. Fato 2: Obviamente esse trabalho foi abandonado por algum tempo. Retratação: Com grande esforço vou retomar um breve resumo do que aconteceu destacando e descartando o que merece ser.
Quando tive contato com a sinopse da produção nacional A Mulher Invisível a primeira impressão que eu tive foi curiosidade. Claro que a presença do grande ator Selton Mello já era algo a se considerar, mas a história incomum era ideal para uma boa comédia romântica, mesmo tendo como um dos protagonistas a bela e péssima atriz (?) Luana Piovani. Engraçado foi a digestão final investida, concebida ao terminar de assistir o filme. Todas as impressões iniciais se provaram inversamente reais. O filme é péssimo. Desde a fotografia, os diálogos, o vestuário e os cortes dignos de trabalhos conceituais estúpidos de estudantes de cinema com baixa auto-estima. Selton Mello apresenta uma péssima interpretação de personagem, sendo que muitas vezes o humor histérico parece ser obrigação contratual, fora a morbidez que assume ao interpretar a falta de lucidez de seu personagem. Sem dúvida algo a ser esquecido. Luana Piovani não consegue provar neste trabalho que de fato é uma boa atriz, mas deve-se a ela o crédito de tornar o filme interessante, pois em nove entre dez cenas ela se apresenta vestida apenas com lingeries sensuais, quando não está nua, para o delírio de espectadores que como eu, sabem reconhecer uma bela mulher. Sem dúvida alguma a melhor cena do filme está por conta da atriz Maria Luisa Mendonça, em uma participação curta, porém excepcional. A cena onde Maria Luisa abandona o seu casamento tedioso é sem dúvida humor e interpretação de primeira classe.
Avatar divide opiniões. Mas tudo na vida que alcança escala estrelar de sucesso divide opiniões. A maior parcela do público – que os críticos e intelectuais consideram como uma imensa multidão descerebrada – adora e consome todos os seus subprodutos com voracidade incompreensível. Existe uma parcela de “realizadores” que motivados pela inveja do sucesso oceânico simplesmente assumem uma postura de desdém silencioso e sim, existem os ignorantes paranóicos por números. Não vou mentir, o meu maior interesse em assistir Avatar era desfrutar da ainda inédita experiência 3D em um cinema Imax. Pouco me importava o filme. De acordo com a imensa propaganda realizada na promoção de Avatar, a tecnologia empregada na produção era sem dúvida revolucionária, atraindo a minha atenção para aquele que seria o maior filme de todos os tempos – considerando apenas a sua proeza na arrecadação financeira. Assisti ao filme. Conheci finalmente o Imax 3D. Em alguns momentos me senti desconfortável com a exposição exagerada de imagens criadas com a utilização de todas as cores disponíveis em processadores de imagens, mas por fim eu aprovei a produção. Seria estúpido para um fã de Star Wars reprovar o filme. Toda a formula da saga está diluída em Avatar. Obviamente existe uma tensão romântica mais evidenciada, mas deixar-se levar por fanatismo cego e destruir a obra de James Cameron é um atestado de estupidez cinéfila. Seria desumano enumerar a quantidade de pontos em comum entre as duas obras, assim como é possível reconhecer em ambas tramas universais como a luta entre o bem e o mal, diferenças filosóficas, armas de última geração, culturas alienígenas e crises de relacionamento. É bom lembrar que Avatar funciona bem da forma que me foi apresentado, em um cinema 3D Imax. Em casa eu acredito que o “efeito Avatar” seja bem menor e ultrapassado por diversos outros filmes de ficção científica produzidos com uma quantidade desprezível de dinheiro.
Assisti Atividade Paranormal para me certificar que a de fato a propaganda quando bem realizada desperta um desejo inconsciente de consumo. Desde o início eu já sabia que a trama do filme era péssima, os “atores” desempenhavam um trabalho absolutamente terrível e o tão esperado “suspense assustador” tratava-se de uma ordinária concepção de efeitos baratos. Mas a propaganda... Assistir Atividade Paranormal foi equivalente a um tratamento odontológico arriscado, sem anestesia, cujas ferramentas do dentista resumem-se em talheres de jantar. Em poucas palavras, foi uma experiência dolorosa. O mais assustador em Atividade Paranormal é saber que de fato algumas pessoas foram assombradas de verdade pela trama do filme.
It´s Complicated é uma bela surpresa que em português deve se chamar com algo próximo de “Simplesmente Complicado”, mas não tenho certeza absoluta sobre o título. Trata-se de mais um trabalho genial de Meryl Streep, Steve Martin e Alec Baldwin. Sua trama é uma deliciosa comédia romântica onde os protagonistas já ostentam muito mais de 50 anos. É engraçado e sensível a forma como o “amor maduro” é tratado no filme escrito e dirigido por Nancy Meyers. Não existem personagens em situações débeis ou extraordinárias, o que se vê é o relacionamento entre uma mulher divorciada e o seu ex-marido além de um possível novo pretendente, onde o tempo é escasso e a vontade de cortejar é infinita. Devo ao filme momentos ótimos, cuja linguagem adulta e os diálogos bem escritos são apenas um elemento entre interpretações espetaculares e locações exuberantes.
Antes de colocar os pés no cinema eu já esperava uma descaracterização do clássico Sherlock Holmes por conta das declarações do diretor Guy Ritchie, divulgadas durante toda a produção e promoção do filme, afirmando que seu objetivo inicial era atualizar a história clássica, adicionando velocidade e elementos marginais.Dessa forma, a opção de manter poucos laços com o passado serviu apenas para despertar a minha curiosidade quanto ao enredo e a atuação de Robert Downey Jr e Jude Law, sem instigar qualquer sentimento repulsivo ou pré-conceitos de resistência a mudanças drásticas na concepção clássica do detetive inglês.
Holmes e seu fiel parceiro Watson serviram de inspiração para dezenas de variáveis durante décadas, entre os quais se destaca o super herói Batman. Entre os pontos em comum o homem-morcego transformou o kit de investigação do clássico Sherlock em um cinto de utilidades moderno, transformando-se em referência à referência na versão de Guy Ritchie, pois o Holmes moderno utiliza-se de uma parafernália igual ao herói dos quadrinhos. O novo Sherlock é um ácido crítico observador, armado com comentários ferozes em ótima condição física. Uma mistura de médico e monstro, atormentado por problemas pessoais que servem apenas de aproximação do personagem a uma condição mais humana e menos racional e robótica. O vício do ilustre personagem de Conan Doyle foi substituído pelo alcoolismo, cujo humor negro empregado à dramaticidade transforma a cena em um ensaio provocativo digno de um Bukowski, assim como a ação constante na trama e a violência típica de Guy Ritchie aproxima Holmes de uma versão ancestral de Tyler Durden.
Para quem gosta de fotografia o filme não desanima na questão visual e surpreende pela riqueza de detalhes sem mergulhar em excessos e falta de bom gosto. Aos amantes de aventuras o ritmo do filme é crescente e empolgante, assim como a dosagem de bom humor torna o filme obrigatório. Se Avatar é tido como o próximo Star Wars talvez o novo Sherlock Holmes seja a atualização de Indiana Jones. E que venha o próximo filme!
Existe mais espaço para filmes sobre vampiros? Existe sim! Desde que quando bem escritos e produzidos, como no caso de Daybreakers. A trama é sensacional e desprende-se do clichê onde os vampiros são criaturas raras cuja relação com humanos é complicada. O ângulo aplicado a trama de Daybreakers é completamente oposta. Na história o mundo foi tomado por um vírus transformando nove entre dez humanos em vampiros, revolucionando a forma como a sociedade e seus ideais existem. Por conta do contágio global o “novo mundo” está diante de um problema colossal, a fome. Uma vez que a sua alimentação é basicamente sangue e os seres humanos são espécies em extinção, os vampiros se vêem diante da necessidade de desenvolver um recurso artificial (True Blood?) para sua existência eterna ameaçada (irônico). Grandes corporações passam a financiar exércitos de vampiros especializados na caça de humanos para o cultivo de sangue em grandes reservas industriais, como no filme Matrix, onde os humanos eram utilizados como baterias pelas máquinas do apocalipse. O filme explora diversas questões humanas e abusa de cenas cuja carnificina é apenas um detalhe por trás de um questionamento ideológico existencial. Surpresa para os fãs de terror e com grandes chances de ganhar uma continuação.
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Ficção/Conto: Egos Vazios, 2010.
Ela gostava de sentir a eletricidade no ar. Fechava os olhos e respirava fundo, enquanto discretamente pressionava os dedos das mãos, um de cada vez. Ela sabia que o seu convite dependia da exuberância da sua beleza, mas não precisava muito se esforçar para chamar a atenção para si. Era bela por natureza, sustentava formas que despertavam o desejo, a paixão e a inveja. Era entre um vale intocável, a mais bela flor.
Ela sabia as regras do jogo. Sabia quando deveria rir, quando deveria se calar e quando deveria apenas concordar. Cortejava cada um dos príncipes com sabedoria, pois de forma amena os tratava como seus escravos. Para cada um de seus desejos ela sabia a quem recorrer. E quando não se sentia satisfeita ela protestava com cenas dramáticas, dignas de cinema. Os homens a adoravam.
A sua beleza era sua redenção de uma vida simples ao mesmo tempo em que representava sua maldição mortal. A beleza, como se sabe, é efêmera e nada mais na vida a preocupava. Ela sabia que não era necessário ser interessante, desde que fosse bela. Sabia que suas formas despertavam sentimentos intensos de desejo e cobiça ao ponto de ser adorada e cortejada por todos ao seu redor. Era tão bela aos olhos e desinteressante aos ouvidos que se tornou um objeto decorativo fácil de desapegar.
Os homens se multiplicavam, mas poucos se arriscavam a acompanhá-la até a manhã seguinte. Em suas grandiosas casas ela era bem recebida, pois sabia que também seria bem vinda em suas confortáveis camas. O pouco amor que lhe dedicavam acabava logo à primeira xícara de café. Ela, merecedora do título de rainha da noite, já não se destacava entre as criadas pela manhã. O fantasma de sua vida simplória atormentava, ao mesmo tempo em que o as marcas de expressão lhe tomava o corpo, deformando a boa forma.
A feiúra exige um esforço maior para se vender como algo interessante. É complicado se destacar quando os olhos se recusam a ver. Mas uma vez que uma mulher feia torna-se interessante aos olhos do mundo, imediatamente perde-se o interesse em futilidades passageiras. Modelos são descartadas como copos plásticos usados, sem qualquer consideração. Pois toda modelo sabe que não existe feiúra que não se cure com uma boa quantidade de dinheiro ou álcool. E não existe cultura em consumo exagerado e luxúria.
Ela acordou e ele ainda estava lá, mas ela já sabia que não por muito tempo. Ela percorreu os corredores sem fim e tratou os criados como se realmente fosse a senhora da casa, exigindo um elaborado café da manhã. Vestiu-se com poucas roupas, cobrindo algumas pequenas imperfeições adquiridas com o tempo e olhou uma dezena de vezes no espelho. Ensaiou um sorriso. Procurou o melhor lugar e acomodou-se observando o nada.
Pensou na noite passada. Pensou no ato. O suor e o ritmo se misturavam a pouca luz, ela sorria diabolicamente enquanto ele flutuava sobre o seu corpo a procura de um orgasmo divino, digno de ser transformado em conto e ser dividido entre os amigos arrogantes. Ela o observava com cuidados e procurava distribuir em seu corpo alguns beijos e carícias desesperadas, pois procurava nele um pouco de amor. Ele manteve os olhos fechados e o ritmo contínuo, satisfeito por mais uma conquista material. Satisfeito por sentir crescer o seu erro e arrogância infinita. Ela chorou.
Sem sucesso pediu uma pausa e com dificuldades procurou um espaço entre os corpos para respirar. Ele a ignorava. Suas lágrimas acumulavam-se nos lençóis. Ela lembrou-se de quando o luxo não era gratuito e vazio. Concentrava-se em encontrar o amor de uma vida passada, quando simplória era, mas felicidade não lhe faltava.
Diante do estupro do seu corpo, cometido pela sua ganância em permanecer dentro de padrões de status e glamour, ela desejava re-encontrar o amor passado e ser feliz. Desejava sentir alguém que se importava com ela, dividindo uma vida simples e feliz. Ela desejava alguém que não poderia ter. Desejava o amor sincero de quem desejaria estar com ela por toda uma vida.
Ele a viu em silêncio, acomodada no melhor lugar de sua casa. Não se preocupou em cumprimentar ou se despedir. Sabia que ao voltar do trabalho ela não estaria mais lá, pois assim ordenou aos empregados da casa. Deixou sob suas roupas, espalhadas pelo quarto, uma considerável quantidade de dinheiro. Sem qualquer sinal de amor.
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Crítica/Música: Cage the Elephant, 2009.
Uma deliciosa fusão entre funk, punk rock e eletricidade é uma forma simples de descrever a sonoridade do grupo americano Cage the Elephant. Formado em Kentucky, originalmente sob o nome Perfect Confusion, o grupo obteve em 2007 um grande destaque durante uma apresentação no festival South by Southwest, resultando em uma proposta de contrato com a gravadora EMI ao deixar o palco.
Contrariando a lógica mercadológica musical, os cinco integrantes do Cage the Elephant deixam os Estados Unidos para fixar residência em Londres, onde em 2008 promovem o lançamento de seu primeiro álbum homônimo. Sendo o mercado europeu mais simpático ao indie rock, o grupo ganha destaque com o lançamento do single de “Ain´t No Rest For The Wicked “, uma composição adorável, qual remete imediatamente as primeiras experimentações do cantor Beck, devido a fusão blues, slide guitar e hip hop.
Com o lançamento do single “Back Against The Wall” no mercado americano, o grupo se destaca entre os 20 principais singles da Billboard durante a semana de lançamento, despertando o interesse da sua gravadora em lançar o seu álbum de estréia em sua terra pátria. O que de fato só aconteceria apenas no primeiro semestre de 2009. Desde então o grupo consolida sua base de fãs e ganha espaço e reputação nos Estados Unidos – o maior mercado de música mundial – destacando-se principalmente por conta de uma turnê conjunta com o grupo The Pigeon Detectives.
Emergencial, acelerado e divertido. Essas são as principais impressões ao ouvir o trabalho do Cage the Elephant, cujo principal destaque fica a cargo do incessante vocalista Matt Shultz e suas divertidas crônicas cotidianas. Destaques para “In One Ear” e sua guitarra contagiante, “Lotus”, uma música perfeita para o repertório do Arctic Monkeys e “James Brown” uma eletrizante homenagem ao rei do funk.
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Crítica/Música: Elizabeth & The Catapult - Taller Children, 2009.
Elizabeth & The Catapult é um trio formado em Nova Iorque cujo álbum de estréia Taller Children foi lançado no segundo semestre de 2009, evocando um espírito universitário simplista, carregado de emoções positivas e melodias radiantes.
Para os que se direcionam mediante comparativos – mesmos os falsos e errôneos comparativos – o trio nova-iorquino caminha sob a linha folk cool, aproximando-se do trabalho de She & Him entre outros. Com produção de Mike Mogis (produtor de bandas como Bright Eyes, The Faint, Rilo Kiley e Rachael Yamagata) o álbum Taller Children é uma surpresa a ser descoberta em 2010.
Com variações entre estilos diferentes como o jazz, o pop e o country, o trio surpreende com uma versão para a música “Everybody Knows” de Leonard Cohen, cujo ritmo crescente e pontuado por cirúrgicos arranjos minimalistas, multiplicando a emoção contida na harmonia. Na canção “Right Next do You” uma homenagem aos Beatles toma forma por meio da inclusão do verso “I heard the new today, oh boy” presente na clássica “A Day In The Life”, mas é por meio da canção que dá título do álbum, “Taller Children”, que o trio formado por Elizabeth Ziman, Dan Molad e Pete Lalish são apresentados em um formato pop doce e delicioso. Sem dúvida algo para ser descoberto aos ouvidos atentos.
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Crítica/Filmes: Uma comédia sem exageros de situações - "The Brothers Bloom", 2009.
Poucas narrativas impressionam o espectador por conta da abordagem e a forma como é tratada. O talento para desenvolver um bom texto é uma habilidade rara, algo quase em extinção na produção cinematográfica atual.
Com um elenco estrelar o filme The Brothers Bloom (Os Vigaristas), escrito e dirigido por Rian Johnson me despertou a atenção, em particular pela presença dos atores Adrien Brody e Rachel Weisz. O que eu não imaginava era encontrar uma obra de delicada beleza poética e fotográfica.
Com performances emocionantes de Mark Ruffalo, confortável no papel de vigarista teatral e Rinko Kikuchi como uma explosiva pin up asiática, o filme de Rian Johnson acerta em apostar em uma fotografia e figurinos clássicos em contraste constante com elementos modernos, como Lamborguinis amarelas e shows de karaokê em Tóquio. O figurino é magnífico e constantemente é perceptível um cuidado quase cirúrgico em registrar referencias literárias em frase bem elaboradas. Se deixar-se levar pela deliciosa trilha sonora, aos cuidados de Nathan Johnson tornar-se difícil entender como The Brothers Bloom foi um filme de tão pouco destaque entre a crítica especializada.
Por se tratar de uma comédia pontuada por um ritmo de aventura, é complicado imaginar uma relação de qualidade sem exageros absurdos, mas um dos grandes trunfos de The Brothers Bloom não é o humor expresso por situações grosseiras, mas a exploração da personalidade de cada um de seus quatro personagens principais.
A deliciosa trama que envolve dois irmãos vigaristas. O mais velho dos irmãos Bloom se destaca como estrategista teatral, diretor primoroso de seus próprios golpes sujos, dividindo o palco de ações criminais com um seu irmão mais novo, um ator principal de seus anseios mergulhado em drama e melancolia pessoal. Juntos, os vigaristas se deparam com o que prometem ser o último grande golpe. Tendo como assistente uma especialista em armas, pin up asiática cuja expressão verbal resume-se em apenas três palavras, um plano cuidadosamente é planejado para roubar a fortuna de uma excêntrica milionária, colecionadora de passatempos.
Com doses de romance e drama bem equilibrados, The Brothers Bloom é um filme que não deve ser ignorado.
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Ficção/Conto: Muros Estreitos, 2009.
Eu já deveria estar dormindo, deveria, pois essa noite não será tão fácil fechar os olhos. Talvez eu já tenha dormido demais para uma vida, quem sabe. Talvez os sonhos tenham se esgotado. Talvez agora tudo possa ser resumido à uma solidão imersa em silêncio e trevas absoluta. Em alguma fase da vida desaprendemos a sonhar, e a realidade é indiferente a qualquer cor alegre. Vivemos então condenados a uma realidade cinza. Em momentos complicados como esse, eu agradeço muito ao canal de desenhos animados.
Repetindo-se continuamente durante toda a noite, os desenhos animados me distraem. Eu não me importo. Devo já conhecer todos os episódios, todas as falas e expectativas daqueles que distraem os filhos de pais preguiçosos, desenhados com cores primárias, multiplicando-se por lares espalhados por todo o país. Comercial. Aguardo a infinita duração de um intervalo comercial, levo as mãos à cabeça, repousando a arma sob a mesa de centro. O intervalo é irritante. Assim como todos os intervalos de vida, quando somos privados de viver alguma das poucas coisas boas na vida. Quando a brincadeira acaba por que já é hora de dormir. Quando a repressão do chefe explode, para consolidar a ordem no ambiente do trabalho. Quando dois amantes se afastam, sem ter mais a certeza de que o amor ainda existe. Decido caminhar até a janela, disposto a admirar as luzes da cidade e seu silêncio fúnebre. Procuro um cigarro no bolso. Poucos gatos se arriscam a caminhar pelo estreito caminho de muros irregulares, assim como poucos cães conseguem se devotar a lua sem serem advertidos pelos seus donos. Quando a cidade dorme e se esvazia, eu encontro algo que posso honestamente admirar.
Observo novamente a televisão e me pergunto quem, em tal importuna hora, estaria disposto a comprar um par de brincos de ouro dourado, decorados com uma duzia de pequenos diamantes falsos. O brilho ofusca a visão. Talvez seja o único horário disponível para vender jóias de péssimo gosto. Talvez seja esse o tão aguardo intervalo final para uma nação de suicídas. Sim, eu consigo imaginar alguém, assim como eu, indisposto com sua vida trágica, povoada por desamores e tragédias cotidianas, aguardando ansiosamente pelo último comercial de sua vida. Pronto para puxar o gatilho. Estou em dúvida, pois o tempo é curto. Ninguém no universo deve optar pelo suicídio durante os desenhos animados, ninguém em sã consciência. Isso é regra para os conscientes. Eu observo a televisão enquanto me divirto com o peso da arma. Seu aço frio desafia o calor da minha mão.
Penso em como será o mundo amanhã. Quantas pessoas vão ignorar o fato de que alguém, eternamente apaixonado pela vida, se matou. Mais um desgostoso da realidade, cúmplice de todos seus fracassos, alguém sem coragem para lutar mais uma vez. Talvez aquele par de brincos seja a oportunidade de um novo começo. Talvez o brilho ofusque a realidade deprimente, talvez faça um sorriso acontecer em algum qualquer lugar. Talvez seja uma nova chance de reconciliar-se com um antigo amor. Devo falar com ela? A dúvida é infinita e a coragem se esgotou. Ninguém se importa. Trata-se aço retorcido e forte inspiração carregada de péssimo gosto, mas desde que esteja decorado com alguns falsos diamantes, acredito que seja o ingrediente ideal para fazer uma mulher feliz. Será que eu devo falar com ela?
Imagino então que em algum lugar, um distante lugar, em alguma sala mal iluminada, assim como a minha é, exista alguém esperando por um pouco de ação. Alguém sozinho, entediado pela falta do que viver, pronto para conversar comigo. Alguém esperando por uma oportunidade de me vender falsos diamantes durante o intervalo comercal. Alguém que acredita no maldito par de brincos. Durante toda a noite o intervalo se repete. Eu imagino se devo comprar uma nova chance para conhecer o amanhã. Imagino se ao acordar vivo, o novo dia irá brilhar com um sabor diferente. Se a música irá conversar com meus pés e o café irá se tornar transparente. Imagino o mundo impossível, e divertido, assim como os desenhos animados são. O intervalo se aproxima do fim. É preciso decisão.
Triste deve ser quem, em instável momento de lucidez, percebe-se incapaz de comprar o pequeno e feio par de brincos. Nem todo mundo tem disponível, em horas críticas e suicidas um cartão de crédito. Pense se o infeliz vizinho irá acordar assustado. Penso se ele ainda consegue sonhar. Aperto o gatilho.
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&hlCrítica/Filmes: O triste retrato de Oscar Wilde - “Dorian Gray”, 2009.
Se fosse por um pouco mais de desatenção eu teria inteiramente ignorado a produção de um filme baseado em uma das minhas obras clássicas favoritas, mas a curiosidade e o destino se cruzaram para logo a tal “obra-prima” tornar-se o primeiro filme de 2010.
Baseado na obra máxima de Oscar Wilde, o filme inglês “Dorian Gray” torna visível o incrível universo que antes apenas era imaginável aos leitores e admiradores da obra de Oscar Wilde.
A produção inglesa esforça-se para visualmente não pecar pela falta de detalhes e texturas, uma vez que diante da extrema riqueza de detalhes do texto de Wilde não caberia a uma adaptação pecar pela simplicidade de cenários e figurinos, o que foi perfeitamente executado pela produção.
Mas enganam-se quem deixar-se levar pelo ótimo trabalho visual, pois o filme “Dorian Gray” carrega em si todos os erros dramáticos de adaptações sofríveis baseadas em obras clássicas, reforçando o dizer que bons livros nunca serão respeitosamente representados por bons filmes.
Para reproduzir a obra de Wilde seria necessária uma produção e duração digna de filmes como “O Curioso Caso de Benjamin Button” ou “Watchmen”, uma vez que o livro “O Retrato de Dorian Gray” requer a habilidade de reproduzir em horas uma história que se desenvolve em décadas; dividindo-se em diversos ciclos e perspectivas diferentes.
O filme inglês peca pela adaptação alternativa da obra, sugerindo um novo e moderno curso a história clássica imortalizada por Wilde. O uso de aforismos do escritor torna-se evidente a cada fala, transformando a poesia dos diálogos do livro em colagens de frases de efeito na tela. O péssimo uso dos efeitos especiais destrói com a magia que envolve a obscuridade pactual espiritual presente na obra, distorcendo o significado e a relação entre o personagem Dorian Gray e o seu magnífico retrato.
Em alguns momentos é possível reconhecer momentos bibliográficos da vida excessiva e carregada de luxúria do escritor; por meio de orgias carnais e representação marginal do personagem principal. O filme demonstra coragem ao arriscar mesclar o fictício Dorian Gray ao genial Oscar Wilde, colhendo apenas o fracasso e a frustração dos admiradores da obra e do escritor em relação à expectativa gerada pela produção do filme.
Aos que já conhecem a obra de Wilde resta apenas à lamentação e a afirmação de sobre a péssima ousadia de transformar uma obra clássica em entretenimento fast-food, mas aos desavisados há no filme inglês “Dorian Gray” uma curiosa história de ficção e fantasia.
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Diário: Para Não Esquecer Ontem.
Dois dias atrás eu observava o nascer do sol sob uma cama de hospital. Não conseguia dormir ou reunir forças para simplesmente andar pela enfermaria. Evitava falar, assim como ouvir tudo que fosse dispensável e sem qualquer ligação com a solução do meu problema. Uma crise gástrica promovia uma incessante dor jamais experimentada. Na cama prometi a todos os santos repensar sobre como me alimento, mas apenas a manipulação dos remédios foi capaz de acudir. Os santos ignoraram minhas preces e assim que a dor se foi, eu dormi.
Engraçado como eu hoje eu me sinto bem. Dois dias após sofrer com o que o médico de plantão declarou como uma crise de "gastrite nervosa", eu já me sinto quase revigorado, mas observo que o estomago ainda não se encontra totalmente disposto. Ele está desconfiado.
Sempre quando abatido por alguma doença eu volto toda a minha atenção para a recuperação. Nada mais além da cura me interessa. Obviamente não sou um paciente dedicado e quase nunca concluo os ciclos de medicação necessários e preventivos. Deixo sempre de lado após voltar a me sentir bem, absolvendo toda culpa pelo descuido ao mesmo tempo em que a intuição agradece por não abusar de doses químicas excessivas. Mas não é o caso, estou velho e obediente. Os dias de paciente revolto acabaram.
Seja como for o problema é sério e pode evoluir. Isso me assusta. Acho que agora eu tenho todo o combustível necessário para iniciar uma dieta balanceada. Motivos não me faltam. Muito em breve eu devo celebrar o ano novo em uma praia sensacional, quase que exclusiva, onde desejo estar totalmente recuperado e habilitado a voltar a beber e comer quase que irresponsavelmente, porém sem abusar. Esse sofrimento me deixou uma preciosa lição como herança. Eu não posso mais ignorar o poder da dor.
Com o tempo os problemas se multiplicam com um único objetivo, torná-lo mortal. Seus heróis não são mais imbatíveis e os seus sonhos não mais dourados. O horizonte toma a forma de um sistema imutável e a melancolia em gotas nos socorre sempre quando chove. Envelhecer é tomar consciência de si, a beira do abismo da morte.
No meu trabalho toda paranóia foi diluída em trabalho coordenado em equipe. Isso me alivia. Justo quando imagina estar próximo do fim do mundo, surge um velho amigo pronto para me salvar e guiar meus passos no escuro. Ao menos era o que eu esperava. Agora me vejo novamente de frente para uma grande ameaça. A supervisão, apta para acabar com a tranqüilidade profissional de qualquer sujeito realizado, surge novamente com um pedido de extrema urgência - caso de vida ou morte. Volto a me ver sozinho, caminhado rumo ao sofrimento, sem qualquer medida de controle de danos. A tranqüilidade é sempre nostálgica no trabalho.
Os amigos estão caminhando por toda a cidade. Já não são um grupo pequeno reservado ou uma multidão animadora, e às vezes penso não haver mais ninguém. Esgotam-se os relacionamentos em questão de anos. Sendo necessária a sua manutenção. Acredito que um dos benefícios da distância seja a renovação de ideais, idéias e experiências. Estamos sempre preocupados em reunir uma boa dose de histórias e nos últimos tempos estamos nos reprisando demais. Talvez os bons momentos tenham se esgotado. Acontece que o momento também é grave e decisivo, seja quem for quem, será a partir de agora alguém. Talvez seja comigo, mas algo me diz que ao meu redor tudo se transforma. Não sou o centro do mundo, sou o meu centro no mundo. Se eu perder um amigo, vejo na mesma velocidade a multiplicação do que se têm. Repetem-se histórias com a necessidade de escrever novas linhas. A distância colabora e transforma, mas cobra o preço de um retorno sem garantias. O que éramos ontem, com certeza não somos hoje.
E o amor está tranqüilo. Estabilizado na segurança rotineira de quem não tem tempo a perder e olhos para se dedicar a acreditar em paralelos. Uma inquietude me assombra, mas o dever grita, portanto não penso em nenhuma medida que seja para mudar o quer que estamos vivendo agora.
Agora me resta apenas a vergonha de não desenvolver o que com certeza irá contribuir para o grande e esperado "salto de vida". Prometo; não vou deixar o tempo cuidar dos meus problemas. Nunca mais.
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